23 de julho de 2009

O QUE É SER MÍSTICO?


Nos dias de hoje, quando se fala em espiritualidade, muitos pensam logo na espiritualidade mística. Esta é uma tendência mundial atual que tem a ver com uma mudança sutil que anda em curso no Inconsciente Coletivo e acho que seria adequado iniciarmos essa postagem com algumas definições anônimas a respeito da Mística: o que é a Mística?

- "É a insistência de que tudo o que é... não é tudo!";- "É o engajamento na busca do Deus-Mistério";- "É a experiência de Deus";- "Místico é tudo aquilo ou aquele(a) que, mediante a contemplação espiritual, procura atingir o estado de êxtase de união direta com a divindade";- "O místico é alguém que vive do encontro pessoal com Deus";- "O místico é aquele que aspira a uma União pessoal ou à Unidade com o Absoluto, que ele pode chamar de Deus, Cósmico, Mente Universal, Ser Supremo, etc.'...

Quando se trata de entender o que é a Mística, não há muito que se explicar, não interessa o nome de quem falou, onde está escrito. Tudo que nos interessa, nesse caso, é a idéia em si e por si mesma. De qualquer modo, percebemos que as principais interpretações não se anulam entre si, mas se complementam ou se aperfeiçoam.

Quando se pensa em buscar a mística, logo se pensa em procurá-la no Budismo, no Hinduísmo ou no Sufismo, entre outras tradições orientais. Nem sequer cogitam buscá-la no Cristianismo, e a “culpa” desse fenômeno é em grande parte das próprias igrejas, o que já é uma outra longa história.Porém, a mística estava presente na mensagem do Cristo desde o princípio.

O alemão Karl Rahner, um dos mais importantes teólogos do século XX, entende "um místico" como alguém que não apenas "ouviu falar" de Deus ou leu a seu respeito em algum lugar, mas o experienciou, e o percebe, vivenciando-o. Essa é uma bela definição do ser místico. Ele proferiu a famosa frase:"O cristão do futuro será um místico, ou não existirá mais."

Os atuantes da Mística, desde que estejam nesse caminho com uma real disposição e empenhados verdadeiramente na Busca, passam por experiências semelhantes entre si. Esses buscadores, independente da religião que professem, não apenas se respeitam como também se estimam uns aos outros, e não pensam em “converter-se” mutuamente. E assim vivem e interpretam suas experiências cada um a sua maneira, uma vez que há interpretações bem diferentes de uma mesma realidade na Mística hinduísta, na budista, etc.

Não são poucos os que se definem como "místicos" sem saber exatamente o que isso quer dizer.
Agostinho, assim como C. G. Jung, vê na identificação com uma imagem arquetípica o perigo da vaidade. Ele entendeu que, quando não levamos em conta as nossas reais necessidades, nós as vivemos inconscientemente com maior intensidade. E alerta para o risco dos que se identificam com a imagem do "místico", viverem suas necessidades de serem especiais, importantes, e muitas vezes o que está por trás desse desejo ser a ânsia de serem notados e de se colocarem acima dos outros, o que não demonstra ser um sentimento puro.

A Mística não é uma espécie de posse, da qual possamos nos orgulhar, ou algo que nos envaideça por essa nossa suposta qualidade de “pessoa mística”.

“Infelizmente, vejo essa tendência hoje, em muitos que se afirmam místicos. Por isso, sempre tomo cuidado quando alguém me pergunta se sou 'um místico'. Estimo o caminho místico e realmente procuro segui-lo; todavia, nunca conclamarei ser ‘místico’.” - Anselm Grün

A verdadeira Mística nasce exatamente no lugar do nosso desespero, lá, onde nos desesperamos de nós mesmos, porque nada nos sustenta mais e percebemos que nossa a existência não tem fundamento por si mesma.Assim, temos dentro da nossa alma uma âncora, que nos mantém firmes e nos faz “penetrar além do véu” (Hebreus 6:19).

O verdadeiro místico deve seguir duas tendências: a Mística da União e a Mística do Amor. Sem dúvida, não se pode separar nitidamente uma da outra; pois a Mística da União está compenetrada de Amor, e na Mística do Amor trata-se da União com o Bem-amado Cósmico.

Místicos vivem sempre a tensão entre “o estar unido” e “o estar separado”, entre integração e dilaceramento. Essa é a razão primeira de existirem as formas religiosas, as práticas, a oração, a liturgia, a meditação, elementos do chamado Caminho de Volta, a eterna saga do Filho Pródigo. É a saga do místico sincero, do buscador da Iluminação pessoal.

A mística grega antiga era, sobretudo, uma Mística de União. O que aí se busca são experiências da Grande Presença. Enquanto estou totalmente neste momento, - o Agora, - totalmente unido com tudo o que existe, experimento, afinal, também a base de todo o ser: Deus, que me compenetra como sendo o Ser verdadeiro e Único.

Na Mística da União visa-se a experiência do ser puro. Em silêncio, uno-me com Deus. Em silêncio, torno-me Um com Deus e, ao mesmo tempo, um com o momento atual, um comigo mesmo, com tudo que existe, inclusive, com todos os meus semelhantes, sem ser maior ou menor, apenas na igualdade, na união da mesma substância, unidos pelo sentimento puro e divino do Amor.

Na Mística do Amor, vivenciamos na alma o Amor Divino e, com verdadeiro sentimento místico, este Amor permanece no ser e se multiplica. Sentimos no outro a mesma Presença, repleta do mesmo Amor. Ser um com Deus é estar Nele, ter o "eu" dissolvido Nele, é estar liberto do ego, dos apegos, do medo. É manter-se em perfeita Harmonia com o Deus Cósmico e Liberdade da alma.

Para Agostinho, a mística consiste em manter “acordada” e sempre viva a Saudade de Deus, na qual Ele se mantém presente no coração humano:

“Se não quiseres interromper a oração, então não interrompas a Saudade de Deus. A tua ininterrupta Saudade é a tua voz de oração ininterrupta.” - Sto. Agostinho

Friedrich Nietzsche declarou que “onde a saudade e o desespero se acasalam, há mística”.

Nietzsche entendeu algo da Mística, ao combinar saudade com desespero. A Mística não é algo que podemos exigir de nós mesmos. A Mística é, antes, sempre esse salto, do desespero da própria Alma para dentro do Mistério inalcançável e Infinito, que acolhe, conforta e ilumina.

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